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AÇUDE DOS BARREIROS: OITENTA ANOS DE
UTILIDADE PÚBLICA
Com o objetivo
de combater esta escassez de água, os irmãos Olímpio Francisco Cordeiro
(1880-1946) e Minervina de Matos Cordeiro (1883-1945), herdeiros e moradores do
sítio Barreiros, decidiram construir um açude para contornar este problema. Nesta
empreitada, contaram com o apoio de alguns dos seus filhos, de outros parentes
que lá moravam e de outros poucos moradores do sítio.
A área
escolhida abrangia a parte mais plana do terreno, entre as muitas serras e
serrotes da região, onde passavam três riachos: um que vinha da Foveira, outro
que vinha do Tabuleiro e um terceiro que vinha da direção do Mamão. Neste
terreno havia também uma cacimba velha. A maior parte do açude ficaria dentro
do terreno pertencente à Minervina.
Assim sendo, passados
os festejos juninos do ano de 1942, logo nos primeiros dias de julho foi dado
início a obra do açude, com a derrubada e a queimada de árvores e a limpeza do
terreno. Toda a obra foi artesanal, pois naquela época não havia maquinário
disponível. Foram de 15 a 20 trabalhadores que dedicaram meses de labuta
intensa na execução da obra. Eles iniciavam as atividades ainda na madrugada, para
reduzir os efeitos do calor intenso.
Os principais operários foram: Antonio Francisco Cordeiro, conhecido como Antonio Terto, que construía e consertava os equipamentos utilizados na obra: carrinhos de madeira (apenas o eixo era de metal) e as padiolas, que eram tiras de couro curtido de boi com madeiras nas extremidades e que mediam cerca de dois metros de comprimento por um metro de largura e eram utilizadas também para carregar barro para a parede do açude; José Francisco Cordeiro (filho de Antonio Terto e conhecido por Zé Terto), que liderou a turma que carregava o barro até a barragem e Vicente Belisário, um dos maiores responsáveis pela escavação.
Com o passar
dos meses, os recursos estavam ficando escassos. Foi então que Minervina resolveu
pedir a ajuda de mais alguns familiares, principalmente aos esposos das filhas
que já estavam casadas: o genro João Cordeiro deu um boi e alguns cereais, o
primo José Raimundo Cordeiro, do Tabuleiro, e o genro Joaquim Cordeiro também
contribuíram com “cargas” de farinha, de rapadura e outros alimentos. Naquela
época, os pagamentos pelos serviços eram feitos basicamente com mercadorias e
cereais, pois o dinheiro ainda não circulava em grandes quantidades na região.
O próprio Olímpio Cordeiro pagou boa parte dos operários com cereais e legumes.
Exatamente no
dia 3 de outubro de 1942, após três dias de chuvas intensas, o açude já
acumulava um considerável volume de água e algumas mulheres aproveitaram para
lavar roupas. O andamento da obra foi prejudicado e a parede do açude acabou
ficando bem menor que o previsto inicialmente. Além disso, como a limpa da área
ainda não havia sido totalmente concluída, alguns troncos de árvores como pés
de sabonete e de oiticica ficaram submersos e ainda hoje estão lá, dentro d’água há mais de
oitenta anos e ainda preservados.
Em 1958, após um
longo período sem chuvas, o açude atingiu seu menor volume de água da história.
A parte mais profunda do açude atingia apenas a altura do joelho de uma pessoa
adulta. Havia muitos peixes e familiares foram chamados para pegar curimatãs e
traíras que estavam morrendo devido a pouca quantidade de água. Foram cavadas
cacimbas dentro do açude para facilitar a retirada de água para o consumo dos
moradores.
Nos início dos anos 1960, Raimundo de Matos Cordeiro, filho de Minervina, trouxe do açude Limas Campos, que fica localizado próximo ao município de Orós, um caminhão carregado de tanques com peixes para o açude dos Barreiros. O açude sempre teve muitos peixes: curimatãs, traíras, corrós, cangatis, piabas, etc. Pescadores mais hábeis e pacientes chegavam a pescar peixes grandes, que pesavam até 10 quilos. Quando o açude sangrava, o pessoal fazia a festa pegando peixes com as mãos no sangradouro.
Sempre disponibilizado para a comunidade, durante os anos 1960 e até inicio dos anos 1970 havia muitos piqueniques de estudantes dos colégios de Nova Olinda, principalmente do Educandário, que costumava levar turmas de alunos até os Barreiros para tomar banho no açude e depois lanchar à sombra do enorme juazeiro. Membros da família e amigos costumavam se deslocar de Nova Olinda e de outros sítios como Frecheira, Tabuleiro, Baixio dos Cordeiros, Tocalha e até dos Araçás para visitar parentes nos Barreiros e aproveitar para nadar e pescar nas suas águas.
O açude sempre
foi muito utilizado pelos moradores dos Barreiros e até de outros sítios
próximos como Frecheira, Tabuleiro e até a Foveira. Nos anos de poucas chuvas
era comum virem boiadas de até 200 gados para beber água no açude. Diariamente
muitas mulheres lavavam as roupas da família no açude, num local específico
para esta atividade. A parte mais profunda, próxima à parede, era a preferida dos
homens para pescar e tomar banho.
Ao longo de todos esses anos, nas terras férteis e normalmente úmidas das suas extremidades, havia sempre grandes canteiros de hortas. Vários moradores plantavam alho, cebola, coentro, pimenta, etc. Plantavam também arroz em alguns trechos. Nos períodos de seca, quando o açude “baixava” muito, troncos de macaubeiras eram usados como dutos de irrigação, levando água do açude até os canteiros. Havia também muitas árvores frutíferas como pés de laranja, manga, goiaba, entre outras. Nos anos 1970 destacava-se o laranjal do outro lado do açude.
Por ser uma propriedade
particular, o açude nunca sofreu nenhum tipo de intervenção da prefeitura ou do
estado, muito embora no dia a dia fosse um açude comunitário, usado pelos moradores
do sítio e das redondezas. Era chamado de açude dos Matos ou “do seu Chiquim”, como
era carinhosamente conhecido Francisco de Matos Cordeiro (1923-2003), filho da
Minervina que ficou responsável pelo açude até o seu falecimento em outubro de 2003.
Mesmo com a
chegada de água encanada através do Sisar (Sistema Integrado de saneamento
Rural) no final dos anos 1990, o velho açude continua até hoje com a sua
relevância para a comunidade, uma vez que além de este serviço ser um pouco
oneroso para boa parte das famílias, também não atende plenamente todas as suas
necessidades, principalmente no que se refere à lavoura e à pecuária.
Seja pela sua beleza, seja pela sua utilidade,
o açude dos Barreiros estará sempre nas melhores lembranças dos atuais e
antigos moradores do sítio, assim como também na memória afetiva de todos
aqueles que um dia tiveram o prazer de tomar banho ou pescar em suas águas ou
simplesmente curtir a natureza exuberante de suas paisagens, normalmente na
companhia de parentes ou amigos queridos.
Contribuíram
para este registro: Luzia Minervina Cordeiro (in memoriam) e Maria de Matos
Feitosa (in memoriam), filhas de Minervina de Matos Cordeiro; Antonio Carlos
Cordeiro, Riselda Cordeiro, Ana Nery, Antonio Feitosa, Zé Feitosa e Maria
Cordeiro (in memoriam), netos de Minervina; Dona Rosalina, Francimar e Fátima
Terto, esposa e filhos de José Terto; Vicência Olímpio, neta de Olímpio
Francisco Cordeiro e Raimundo Belisário Cordeiro, filho de Vicente Belisário. A
todos eles, os meus sinceros agradecimentos.


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