CORREIO BARREIRENSE          3ª edição/fev 2023                                                                                           Uma nova opção de leitura 



AÇUDE DOS BARREIROS: OITENTA ANOS DE UTILIDADE PÚBLICA

                                 


            Corria o ano de 1942 e mais uma estação chuvosa chegava ao fim no sítio Barreiros, município de Nova Olinda, no Cariri cearense. A escassez de água na região permanecia. Esta situação já vinha se agravando desde a década anterior, quando tivemos uma das maiores secas do nosso estado, a histórica seca de 32. Foi uma época muito sofrida para a população cearense. Para termos uma ideia da grandiosidade desta seca, há relatos de que durante este período alguns habitantes de Nova Olinda deslocavam-se até o Pernambuco em busca de alimentos para a família. De lá traziam sacos de mucunã, que usavam para fazer pão e também com frutos do croatá, que era utilizado tanto como alimento como também para fins medicinais.

Com o objetivo de combater esta escassez de água, os irmãos Olímpio Francisco Cordeiro (1880-1946) e Minervina de Matos Cordeiro (1883-1945), herdeiros e moradores do sítio Barreiros, decidiram construir um açude para contornar este problema. Nesta empreitada, contaram com o apoio de alguns dos seus filhos, de outros parentes que lá moravam e de outros poucos moradores do sítio.

A área escolhida abrangia a parte mais plana do terreno, entre as muitas serras e serrotes da região, onde passavam três riachos: um que vinha da Foveira, outro que vinha do Tabuleiro e um terceiro que vinha da direção do Mamão. Neste terreno havia também uma cacimba velha. A maior parte do açude ficaria dentro do terreno pertencente à Minervina.

Assim sendo, passados os festejos juninos do ano de 1942, logo nos primeiros dias de julho foi dado início a obra do açude, com a derrubada e a queimada de árvores e a limpeza do terreno. Toda a obra foi artesanal, pois naquela época não havia maquinário disponível. Foram de 15 a 20 trabalhadores que dedicaram meses de labuta intensa na execução da obra. Eles iniciavam as atividades ainda na madrugada, para reduzir os efeitos do calor intenso.

 Os principais operários foram: Antonio Francisco Cordeiro, conhecido como Antonio Terto, que construía e consertava os equipamentos utilizados na obra: carrinhos de madeira     (apenas o eixo era de metal) e as padiolas, que eram tiras de couro curtido de boi com madeiras nas extremidades e que mediam cerca de dois metros de comprimento por um metro de largura e eram utilizadas também para carregar barro para a parede do açude; José Francisco Cordeiro (filho de Antonio Terto e conhecido por Zé Terto), que liderou a turma que carregava o barro até a barragem e Vicente Belisário, um dos maiores responsáveis pela escavação. 

Com o passar dos meses, os recursos estavam ficando escassos. Foi então que Minervina resolveu pedir a ajuda de mais alguns familiares, principalmente aos esposos das filhas que já estavam casadas: o genro João Cordeiro deu um boi e alguns cereais, o primo José Raimundo Cordeiro, do Tabuleiro, e o genro Joaquim Cordeiro também contribuíram com “cargas” de farinha, de rapadura e outros alimentos. Naquela época, os pagamentos pelos serviços eram feitos basicamente com mercadorias e cereais, pois o dinheiro ainda não circulava em grandes quantidades na região. O próprio Olímpio Cordeiro pagou boa parte dos operários com cereais e legumes.

Exatamente no dia 3 de outubro de 1942, após três dias de chuvas intensas, o açude já acumulava um considerável volume de água e algumas mulheres aproveitaram para lavar roupas. O andamento da obra foi prejudicado e a parede do açude acabou ficando bem menor que o previsto inicialmente. Além disso, como a limpa da área ainda não havia sido totalmente concluída, alguns troncos de árvores como pés de sabonete e de oiticica ficaram submersos e  ainda hoje estão lá, dentro d’água há mais de oitenta anos e ainda preservados.   

Em 1958, após um longo período sem chuvas, o açude atingiu seu menor volume de água da história. A parte mais profunda do açude atingia apenas a altura do joelho de uma pessoa adulta. Havia muitos peixes e familiares foram chamados para pegar curimatãs e traíras que estavam morrendo devido a pouca quantidade de água. Foram cavadas cacimbas dentro do açude para facilitar a retirada de água para o consumo dos moradores.

Nos início dos anos 1960, Raimundo de Matos Cordeiro, filho de Minervina, trouxe do açude Limas Campos, que fica localizado próximo ao município de Orós, um caminhão carregado de tanques com peixes para o açude dos Barreiros. O açude sempre teve muitos peixes: curimatãs, traíras, corrós, cangatis, piabas, etc. Pescadores mais hábeis e pacientes chegavam a pescar peixes grandes, que pesavam até 10 quilos. Quando o açude sangrava, o pessoal fazia a festa pegando peixes com as mãos no sangradouro.

Sempre disponibilizado para a comunidade, durante os anos 1960 e até inicio dos anos 1970 havia muitos piqueniques de estudantes dos colégios de Nova Olinda, principalmente do Educandário, que costumava levar turmas de alunos até os Barreiros para tomar banho no açude e depois lanchar à sombra do enorme juazeiro. Membros da família e amigos costumavam se deslocar de Nova Olinda e de outros sítios como Frecheira, Tabuleiro, Baixio dos Cordeiros, Tocalha e até dos Araçás para visitar parentes nos Barreiros e aproveitar para nadar e pescar nas suas águas.


O açude sempre foi muito utilizado pelos moradores dos Barreiros e até de outros sítios próximos como Frecheira, Tabuleiro e até a Foveira. Nos anos de poucas chuvas era comum virem boiadas de até 200 gados para beber água no açude. Diariamente muitas mulheres lavavam as roupas da família no açude, num local específico para esta atividade. A parte mais profunda, próxima à parede, era a preferida dos homens para pescar e tomar banho.

Ao longo de todos esses anos, nas terras férteis e normalmente úmidas das suas extremidades, havia sempre grandes canteiros de hortas. Vários moradores plantavam alho, cebola, coentro, pimenta, etc. Plantavam também arroz em alguns trechos. Nos períodos de seca, quando o açude “baixava” muito, troncos de macaubeiras eram usados como dutos de irrigação, levando água do açude até os canteiros. Havia também muitas árvores frutíferas como pés de laranja, manga, goiaba, entre outras. Nos anos 1970 destacava-se o laranjal do outro lado do açude.



Por ser uma propriedade particular, o açude nunca sofreu nenhum tipo de intervenção da prefeitura ou do estado, muito embora no dia a dia fosse um açude comunitário, usado pelos moradores do sítio e das redondezas. Era chamado de açude dos Matos ou “do seu Chiquim”, como era carinhosamente conhecido Francisco de Matos Cordeiro (1923-2003), filho da Minervina que ficou responsável pelo açude até o seu falecimento em outubro de 2003.

Mesmo com a chegada de água encanada através do Sisar (Sistema Integrado de saneamento Rural) no final dos anos 1990, o velho açude continua até hoje com a sua relevância para a comunidade, uma vez que além de este serviço ser um pouco oneroso para boa parte das famílias, também não atende plenamente todas as suas necessidades, principalmente no que se refere à lavoura e à pecuária.

 Seja pela sua beleza, seja pela sua utilidade, o açude dos Barreiros estará sempre nas melhores lembranças dos atuais e antigos moradores do sítio, assim como também na memória afetiva de todos aqueles que um dia tiveram o prazer de tomar banho ou pescar em suas águas ou simplesmente curtir a natureza exuberante de suas paisagens, normalmente na companhia de parentes ou amigos queridos.

Contribuíram para este registro: Luzia Minervina Cordeiro (in memoriam) e Maria de Matos Feitosa (in memoriam), filhas de Minervina de Matos Cordeiro; Antonio Carlos Cordeiro, Riselda Cordeiro, Ana Nery, Antonio Feitosa, Zé Feitosa e Maria Cordeiro (in memoriam), netos de Minervina; Dona Rosalina, Francimar e Fátima Terto, esposa e filhos de José Terto; Vicência Olímpio, neta de Olímpio Francisco Cordeiro e Raimundo Belisário Cordeiro, filho de Vicente Belisário. A todos eles, os meus sinceros agradecimentos.



Por:Antonio Erivaldo Cordeiro Feitosa. 




















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